Por Pedro Leitão | Quarta-feira, 18 Novembro , 2009, 17:03

Sempre que te tenho é contagem

Decrescente

De tudo quanto é finito,

E cada olhar teu que sinto

É só mais um que já passou.

 

Todo o princípio é passagem

Indolente

Rumo ao fim adiado mas escrito...

E eu docemente minto,

Insciente, a ti e ao que sou.

 

E chega o dia, chega a hora,

Do final

E num repente já não és nada que eras:

Será que foste tu a morta em mim,

Ou será que fui eu que te morri?

 

Nada sei, é sempre cego ver p'ra fora:

Se afinal

Vejo-me eu em quaisquer esferas.

- Ultimamente, o constatar dum fim,

É igual a um novo início, igual a ti.


Por Pedro Leitão | Sábado, 07 Novembro , 2009, 03:25

Nós só fizemos da vida
O que a vida fez de nós:
E a descrição dessa ferida
Reside para além da voz.

Toda a dor em mim sentida
Fantasma desta angústia atroz,
Alastra, passo lento, repetida:
Lembranças mais não são que pós.

Tu, como o resto, adormecida,
Vives sempre no limbo dessa foz
Da memória vasta em mim contida:
Duro aviso de sermos sempre sós.
 


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 02 Novembro , 2009, 03:25

Tudo parece que chove hoje,
E também tu vens com a chuva,
E como ela te vais.

O cristalino da tua presença,
Como da dela,
Esfuma-se a cada traço, impetuoso,
Do tempo.

E ainda assim tempo é presente,
E no presente chove,
E a chuva é saudade de ser rio.

Não escrevo, também eu, mais do que ela faz,

Precisava, para isso,

Para significar,
Para ser mais que água,
Para ser eu escrito,

De mais uma única sílaba.


Tu.


Por Pedro Leitão | Terça-feira, 27 Outubro , 2009, 03:24

Cada palavra tua,
Tempestade

Que me embala na orla do teu ser.

Cada palavra tua,
É maldade


Irrisória de não te merecer.

Cada palavra tua,
Dúvida exacta,

Mesmo as que teimas não dizer.

Cada palavra tua,
Mata.

 


E é por isso que quero morrer.


André Vilhena

 

 

(Quem é André Vilhena? -> semtido.blogs.sapo.pt/76461.html)


Por Pedro Leitão | Domingo, 18 Outubro , 2009, 18:34

A vida é uma ponte:

Existir é atravessá-la,

Passo constante, insciente,

A Consciência toldada pela psique dos passos,

Sabendo que não há que por deserto a outra margem.

 

Deserto de sentido,

Deserto de amor (ou admissão nihilista do seu absurdo),

Deserto da percepção nítida como a realidade

Do deserto da própria passagem.

 

Existir, sim: é atravessar a ponte.

 

 

E viver?


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 28 Setembro , 2009, 19:06

A minha vida é revisitamento.

Nada aprendo, nada fica, do que passa,

E nada passa, realmente, no que sou.

Nada novo: nem esperança, nem talento...

Nenhum original estado de graça

Diferente de algum que já passou.

 

Procuro no futuro o meu alento:

Sou pessoa adiada do que faça,

E ampulheta que o tempo esvaziou.

Mais do que já sou nunca me invento,

Senão em sonhos ocos, crença laça,

Pensados por quem só a si sonhou.


Por Pedro Leitão | Sexta-feira, 04 Setembro , 2009, 03:38

Fizeste,

Meus alentos,

De todas as secretas esperanças...

 

Que no teu olhar de ti me deste.

 

 

Fizeste,

Em três tempos,

Que tudo brilhasse no meu mundo...

 

Nas parcas palavras que disseste.

 

 

E fizeste,
Por momentos,
Calar a maior beleza das palavras...

E foi sem palavras que o fizeste.

 

 

 

André Vilhena


Por Pedro Leitão | Domingo, 16 Agosto , 2009, 04:09

Eu vejo vazio,
Todo o vazio do mundo,
No exagero de todo o mundo que me rodeia.

No exagero de todas as coisas:
Das pessoas,
Das palavras,
Dos gestos,
Das vozes exaltadas de comoção,
Dos acontecimentos exaltados de finitude e pressa,
De tudo o que me rodeia, por fora e por dentro,
Eu vejo o vazio do mundo.

Na relação avassaladora,
No projecto maior,
No prolongar do sonho para além do sonho,
Na ambição maior que a própria vida,
Na falta maior que a própria ambição,

No plácido vazio das coisas e das realizações,

Eu vejo o vazio do mundo.


E, em todo o vazio do mundo,
Vejo espelho,
Vejo metáfora requintada e sublime,
Vejo transfiguração completa,

De todo o vazio que é meu.


Por Pedro Leitão | Quinta-feira, 23 Julho , 2009, 17:54

Sou aquele que troca o certo pelo sonho,

E que no trocar assim

Se troca a si.

De mim,

Nas coisas, nada ponho,

Da vida, nada sei do que vivi.

 

És, também tu, mais uma dessas,

Coisas certas, perdidas,

Do passado...

Esquecidas

Estão as juras, as promessas,

E não esqueço o que não pode ser lembrado...

 

No perdido que estou procuro a hora:

Que ela mesma é que me busca,

Encontrada:

É brusca,

A memória, a ir-se embora,

E são três: e trinta e três, horas de nada.

 

E eu não sei morrer, lembrei-me agora!

Na lembrança da sorte,

Da passagem...

A morte

Não se aprende, nem demora,

Mas a tua fi-la eu, à minha imagem.

 

És folha que secou: já não renasce!

Senão por outra uma,

De igual forma:

A suma

Do que foste, onde tocaste,

É sonho que no limbo se transforma.

 

Tudo passa: como tu passaste.

E eu de ti agora, além da bruma,

Já só vejo névoa, espuma, e a doce norma.

 

 


Por Pedro Leitão | Terça-feira, 30 Junho , 2009, 14:56

Eu escrevo sobre mim, sem ser que sou,
E talvez não seja o único que o pensou.

Eu escrevo sobre a morte, sem sabê-la,
E talvez não seja o único a escrevê-la.

Eu escrevo ideais, que não os tenho,
E talvez não seja o único: já nem estranho.

Eu escrevo poesia, e não o sei,
E talvez não seja o único, nem serei.

Eu escrevo sobre amor, sem o ter visto,
E talvez não seja o único: não, nem nisto.


Mas eu, no saber que o não sou,
Tenho a esperança de ser único onde vou.


Por Pedro Leitão | Sábado, 23 Maio , 2009, 05:13

Quantas vezes já abri um livro qualquer, em qualquer livraria, de qualquer autor vagamente obscuro (ou não! Meu deus, ou não!) para me deparar com uma poesia claramente incompreensível, com palavras inesperadamente casuais, e com ideias originalmente desprovidas delas mesmas.

 

Talvez seja eu: admito, talvez seja. Eu que percebo e analiso Pessoa, ou Camões, ou outros poetas clássicos sem a mínima dificuldade ou esforço, talvez não tenha inteligência ou capacidade poética para entender a mensagem destes novos poetas desconhecidos do impossível.

 

Ou então o que eles escrevem não passa daquilo que vejo: um amontoado de palavras, para parecer bem, um acaso de ideias tornadas difíceis ao ponto de perderem a sua identidade de ideias, só porque sim, só porque é bonito e intelectual e poético e arrogante.

 

Por isso aqui fica um poema dum nome certamente desconhecido para todos vós. Mas oh, se é mais belo que muitos dos poemas sem sentido que já li em finas edições de capa dura!

 

Poema

 

No frio duma palavra
O barco
É corpo alado no orvalho da manhã

E o punhal do crepúsculo
Fere-me o olhar, latente,
Com a inocência mais completa
e mais pura
Dum ser - sozinho

Na voraz vaga dos meus dias.

 

 

Vicente de Melo Andrade

 

 

(É isso e todos esses poemas falarem de barcos, de mares, e corpos - de preferência nus quem sabe por algum voyeurismo recalcado - e de rosas e outras coisas que tais.)

 

Obrigado pela atenção.


Por Pedro Leitão | Quinta-feira, 14 Maio , 2009, 21:37

O sentido da vida é uma
Vaga esperança do que vem:
Esperança de coisa nenhuma,
Esperança do que nos convém…

Se por coisa entendermos o real,
É esperança da esperança simplesmente:
O suspirar um amanhã, quando afinal
O que aspiramos é a fuga dum presente.

E já é hoje, quando chega, o amanhã!
E já é ontem, na esperança que dele temos!
Morres por dentro, mas não a crença vã
De algum hoje em que o que é é o que cremos!


Por Pedro Leitão | Quarta-feira, 29 Abril , 2009, 22:14

Fazes-me, assim, essas perguntas,

E é o universo todo cada uma quando o fazes.

 

Perguntas,

Rápidas,

Ansiosas,

Incessantes,

Prementes, como nada, para ti,

Asfixiada pela sua premência absoluta.

 

Perguntas-me. Sobre amor, sobre ideias, sobre gestos,

Sobre perfeição e ideais.

 

Perguntas-me,

Sobretudo,

Sobre tudo.

 

E eu, perante as perguntas que me fazes,

Não respondo,

Não pergunto,

Somente digo:

 

Define amor. Define ideias. Define gestos.

Define perfeição, e, se conseguires, define ideais.

 

E, se te sobrar tempo, define tudo.

 

E se,

Porventura,

Por falta de definição falhas,

Sê honesta:

 

Não me perguntes o que não tem respostas,

Não me exijas o que não sou,

 

Não me fales

(Falando)

O que não possui palavras.


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 23 Março , 2009, 19:01

Cada dia, cada chance do perfeito,

Tudo preso na incerteza dum talvez:

O que é que do que foi foi feito?

O que é que do que foi se fez?

 

Tudo gasto sem qualquer proveito:

És a mera sombra do que de ti vês!

Da ideia grande, resta o sonho estreito,

A fazer noutra semana, noutro mês,

 

Noutra vida, noutro tempo, doutro jeito:

Deitas fora o que és mais uma vez.

Afirmas, para ti que és o eleito,

E alimentas a verdade do que crês...

 

 

Será que serás tudo o que és?


Por Pedro Leitão | Quinta-feira, 12 Março , 2009, 14:22

Por ser um desafio interessante, e por poder aumentar eventualmente o número de leitores que tenho, e por andar a aprender espanhol, e porque sim, decidi traduzir este blog (post a post, e certamente não todos os posts :P) para espanhol.

 

Se alguém perceber alguma coisa de espanhol, peço encarecidamente que dê lá um salto e que me aponte qualquer erro / má construção / coisa esquisita presente, porque estou certo de que a combinação aulas de espanhol + espanhol de ouvido + google translator + babelfish + corrector ortográfico do google pode não dar muito bons resultados.

 

Aqui fica então o endereço de tal projecto surreal:

 

Semtido ES

 

 

Obrigado pela atenção :)


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Beethoven - Moonlight Sonata, op 27 no 2
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