Este é, talvez, o meu último poema.
Não o é por nenhuma perfeição poética,
Ou por qualquer sua outra propriedade,
Mas sim por alguma coisa fora dele
(Ou dentro dele, pois se está dentro de mim)
Estou cansado da cinza sobre a mesa,
Do musgo lentamente alastrando nas minhas paredes,
Da subtil mediocridade instalada a meu pedido,
Da vida que corre comigo alheado,
Quando me dizem que o devo aceitar.
É melhor o conforto do musgo, dizem,
Que o desconforto de não ter paredes
(Onde ele cresça).
Que solução?
O atractivo do conforto de quatro paredes humanas,
Numa decadência humana,
Por um medo humano
De ser diferente.
Deixar a casa?
E a crise imobiliária,
E a tristeza da casa que deixo e já me deu tanto,
Esgotando-se em mim como eu nela,
Ao ponto do musgo já ser nosso?
E a incerteza,
E a ironia disto tudo,
Sabendo que a perfeição aparente
É mera questão de tempo?
Nada há a fazer,
Em consciência:
Porque nada há em consciência.
É tudo verdade, é certo,
Ou então quão verdade a verdade possa ser.
Mas então porque o horror,
Quando acordo da doce letargia,
E o sonho de outra coisa qualquer?
A eterna questão irresolúvel.
Ser único…
E não se bastar a si próprio.